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O preço da fidelidade

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Quanto custa a fidelidade de alguém?

Se você pensou num cão, esqueça: ele a oferece de graça, de forma incondicional, free of charges. Podemos apenas pensar em quanto ela pode valer.

Se pensou numa pessoa, isso depende: qual o grau de fidelidade que você espera? Por quanto tempo? Com qual finalidade? Sim, porque a fidelidade humana tem preço, hora para começar e acabar e, principalmente, propósito. Cada variável possui um preço, normalmente proporcional ao esforço que representa. Não existe fidelidade pessoal irrestrita.

E se a fidelidade for de uma empresa, de um parceiro comercial? Não é difícil imaginar que ela não será incondicional, muito menos gratuita. Mas será que ela é tão restritiva quanto a pessoal?

Vamos avaliar alguns exemplos: a Shell é parceira da Ferrari há 60 anos. Isso é muito tempo e deve ter custado um bocado. Mas quanto será que ela vale? Ainda sem sair da Ferrari, qual será o custo da fidelidade de 58 anos da Pininfarina?

Poucas parcerias duram tanto tempo no mundo dos negócios. Ford e Firestone mantiveram um relacionamento tão íntimo e por tanto tempo, que até casamento entre membros das duas famílias aconteceram. E tudo acabou quando vários pneus começaram a estourar por negligência de ambas as partes.

A questão por trás desses exemplos é simples: quanto do sucesso da Ferrari, a mais admirada e antiga (considerando atuação ininterrupta) marca de esportivos do mundo, pode ser creditado a essas parcerias? Será que a Ferrari continuaria sendo quem é se tivesse mudado esses parceiros? E no caso da Ford, o que aconteceu? Parceiro errado?

Primeiro, vamos a alguns fatos. Fidelidade é uma coisa; casamento de conveniências, outra. Uma parceria de longa data não garante fidelidade, assim como um casamento. Não é o tempo de relacionamento que define os princípio: são os princípios que definem o tempo. Fidelidade não é apenas uma espécie de monogamia: é cumplicidade.

Sem querer usar a Ferrari (a fabricante de veículos esportivos, não a escuderia) como modelo de empresa, se olharmos para a relação que ela possui com seus funcionários, vamos perceber a mesma fidelidade que existe com fornecedores. É uma questão de coerência. Se existe orgulho na relação e ele é mútuo, não tem porque ter data para terminar.

Portanto, é bem provável que a marca Ferrari deva muito da sua imagem a esse tipo de relação que tem em todas as direções. Fidelidade é uma forma de vida: ou você é fiel, ou não. Se é, procura ser em tudo o que faz. Como pode uma empresa querer fidelizar clientes se não consegue fidelizar funcionários ou fornecedores? A fidelidade daqueles que ajudam a produzir é o que irá garantir a consistência do produto final e, portanto, a fidelidade dos clientes. Não é possível ser fiel por conveniência.

Por isso, quando vejo as empresas falando em fidelização de clientes, a primeira coisa que procuro saber é como ela trata seus fornecedores e colaboradores. O mesmo vale quando se fala em respeito, sustentabilidade, transparência, encantamento. Todos esses conceito não podem ser praticados apenas por conveniência ou na comunicação. Sem recheio, essas mensagens não se sustentam ao longo do tempo.

A Internet, sobretudo por meio das redes sociais, tem ajudado a desvendar essas fachadas cenográficas de várias empresas. Cada vez fica mais fácil perceber quando “as ideias não correspondem aos fatos”. Aí, não adianta investir fortunas em filmes caros, testemunhais globais, anúncios de página quádrupla. Não adianta mais parecer correto, é preciso ser correto. E não dá pra ser correto em termos, pela metade, dentro de determinadas circunstâncias. Hoje, todos os canais de contato e acesso de uma marca estão conectados, interagindo, verificando aquilo que o Google faz no processo de ranqueamento de páginas: relevância e consistência. Da mesma forma que não dá para se enganar um robô sobre o conteúdo de uma página, não dá para mascarar a verdade quando não se tem controle sobre os meios e sobre o consumidor.

Por esse motivo é que criamos e utilizamos na Lumina1 o conceito de “defesa de marca”. Defender uma marca é entender que não dá para cuidar apenas do que é mais visível ou evidente: todos os canais de interação com o consumidor, sejam diretos ou indiretos (representantes, por exemplo), precisam estar coerentes, transmitindo a mesma mensagem. O fim de uma marca começa no conflito de mensagens.

Portanto, voltando à questão inicial, a fidelidade não tem preço. Aproveitando o farto material que a Ferrari oferece, só um cliente fiel vai investir mais de um milhão de euros (na Europa) para ter um carro como a 599 Scuderia, um carro que sequer é homologado para andar nas ruas. A fidelidade não tem preço nem no aspecto tangível e nem no intangível.

Se a fidelidade não tem preço, a infidelidade é fácil mensurar: ela custa, a médio e longo prazo, o valor da marca. E então, quer pagar quanto?

A defesa de uma marca

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Bem, amigos da Lumina1, a Copa 2010 acabou pro Brasil. Até aí, nenhuma novidade. A novidade é o que se extrai de alguns fatos ocorridos e uma coisa, para nós, muito mais importante do que isso: hoje, 02 de julho, é também o aniversário de 9 anos da Lumina1. E o que uma coisa tem a ver com a outra?

Há 3 anos criamos o conceito de defesa de marca e associamos o nosso número 1 à figura do goleiro. Mais do que isso, resolvemos abraçar o conceito de defesa de marca, tornando-o uma espécie de mantra no nosso trabalho diário, gerando atenção redobrada a tudo o que fazemos. Temos, como um goleiro, a consciência de que não podemos falhar. Sabemos que, se isso acontece, todo o trabalho realizado pode ir por água abaixo. Ao longo desses 9 anos da Lumina1 temos o orgulho de dizer que falhamos muito pouco. Muito pouco mesmo. Mais do que isso: sempre fomos extremamente ágeis em corrigir as falhas que surgiram.

Nosso esforço e treinamento também mostraram evolução: já há 18 meses que a Lumina1 só sabe o que é conquistar novos clientes. Os números falam por si: apenas este ano, crescimento de 40% na equipe e de 56% no faturamento. Estamos defendendo mais e melhor. Quase podemos dizer que estamos pegando tudo.

Apesar de resultados tão positivos, a defesa de marca é uma espécie de obsessão que não deixa você descansar sobre os louros das vitórias conquistadas. A defesa mais importante é sempre a próxima. Num mundo onde as notícias se espalham em questão de segundos, errar pode ser fatal.

E esta semana, particularmente, foi repleta de falhas exemplares na defesa de marcas importantes, sendo a mais triste e literal delas a de Júlio César no primeiro gol da Holanda. Sem querer culpá-lo pela derrota, a verdade é que o melhor goleiro do mundo falhou na única oportunidade que não podia. Essa é a vida de goleiro, esse é o preço de defender. A outra falha da semana foi da Folha, no episódio mais retuitado (até a derrota do Brasil, pelo menos), no anúncio da eliminação após o jogo contra o Chile.

No caso do Extra, todo o investimento na Seleção quase foi por água abaixo num deslize simples: ao invés de um anúncio (o da vitória), publicaram outro (o da derrota). Talvez eles tivessem nomes parecidos que não ajudaram a saber qual publicar. O fato é que o erro aconteceu e, em poucas horas, todo mundo sabia do ocorrido, a ponto de entrar em trendtopics e de aumentar significativamente as buscas sobre extra no Google. Ato contínuo, surgiram as culpas e desculpas. Segundo o Extra, o erro seria da Folha, que ficou de apurar o ocorrido. Se já é complicado uma empresa defender sua marca, imagine quando isso depende de terceiros.

A questão interessante não foi o erro, que já deve ter acontecido inúmeras vezes. O problema foi o erro num momento de tanta exposição (Copa do Mundo) e num mundo tão conectado. Algo que ficaria restrito a leitores do jornal (e mesmo assim nem todos), virou erro internacional. Mas pior mesmo foi a forma de se lidar com o fato. Achar culpados e pedir desculpas não anulam o ocorrido e nem revertem o prejuízo. Muito menos uma errata. Ao se detectar o erro, virou gerenciamento de crise: como explicar à nação brasileira o que aconteceu? Como evitar danos à imagem? Como defender o indefensável?

A resposta nem é tão difícil: sendo transparente. Derrotas fazem parte de qualquer esporte e mais ainda de uma Copa do Mundo, sobretudo numa etapa decisiva. Quando uma empresa investe num time ou numa seleção sabe disso. E não investe apenas pensando na vitória, o que seria burrice. Investe pensando também na derrota. O Extra tinha o anúncio para a derrota engatilhado (que, se não tivesse sido queimado, seria usado amanhã) porque isso poderia acontecer. Não se trata de falta de confiança; ao contrário, é estar pronto para o melhor e pior. Ninguém que falou em nome do Extra abordou esse lado ou soube sair de cabeça erguida do erro. Apenas houve a preocupação em culpar e se desculpar.

No dia-a-dia, encontrar culpados pode ser necessário mas ajuda muito pouco à imagem da marca. Encontrar soluções com agilidade é mais do que essencial: é a única forma de se defender uma marca. Isso se aprende todo dia aqui na Lumina1, há 9 anos. Aqui, todo dia é como se fosse uma final de Copa do Mundo. Por isso, embora a derrota do Brasil tenha diminuído um pouco a alegria do dia de hoje, temos muito pra comemorar. Pelos 9 anos passados e pelas perspectivas cada vez melhores sobre o futuro.

Comunicação Gaga

quarta-feira, 14 de abril de 2010

De tempos em tempos surge alguma bizarrice nova no mundo fashion-pop que se transforma em sucesso mundial e parece dominar todas as atenções. Como esse mundo fashion-pop é o espelho da sociedade de consumo, na esteira desse sucesso surgem clones e cópias de todos os tipos e tamanhos.

Uma dessas ondas recentes é Lady Gaga. Figura onipresente na música e no entretenimento recente, a americana parece um personagem de filme B da década de 60 que viajou no tempo e incorporou todas as cafonices e esquisitices do mundo tecnológico. Não me cabe tecer comentários sobre a música, até porque, nesse quesito, teríamos que analisar tudo o que surgiu nos últimos anos que está no mesmo nível, o que não é pouco.

ladygaga_bizarra

Meu interesse está no conceito, tanto da música quanto do visual. Lady Gaga percebeu que vivemos numa sociedade saturada e repleta de múltiplos exemplos semelhantes dos mais variados tipos, ou seja, muito do mesmo. Ao invés de apostar na sua capacidade de composição artística (no bom sentido), coisa que até tentou fazer no início, resolveu adotar o visual mais bizarro e chocante possível, tanto nos figurinos quanto nas performances, vídeos e composições. Ou seja, tanto faz o que a Lady Gaga canta, se canta, se sabe compor ou que gênero adota: sua forma é muito mais gritante que seu conteúdo.

Fosse a arte pop mais zelosa de suas crias, arriscaria dizer que o tempo iria se encarregar de dizer se há ou não conteúdo nesse pacote explosivo, mas a história tem mostrado que tanto faz. Quando chegar a hora do revival dos anos 2000 (em breve), o conteúdo oferecido pela Lady Gaga parecerá bom e a forma será lembrada como bizarra mas divertida.

Tudo isso para chegar aonde queria: que a música utilize esse tipo de expediente, eu entendo e aceito. Num mundo de tanta competição, cada artista pode transformar a si mesmo no produto que quiser, adotando a estratégia de popularização mais pertinente. Uns criam fama oferecendo drink à base de urina a fãs (duvida? clique). Outros, sendo Lady Gaga. Mas, será que o mesmo vale para produtos e marcas?

Será que um refrigerante ou um carro pode abandonar todo um histórico de imagem de marca e adotar uma imagem bizarra e chocante em sua comunicação apenas porque está na moda ou porque é diferente? Será que é legítimo no mundo do brand building buscar a fama na esteira de personagens como Paris Hilton, associando uma marca a comportamentos questionáveis? O que vale para artistas vale para produtos e serviços?

Eu acredito que não: produtos possuem heranças genéticas, ainda que artificiais, que precisam ser preservadas, evoluídas e não tratadas apenas como artifícios de marketing. Ignorar a herança genética de uma marca só é válido quando são criadas novas divisões que conflitam com as existentes ou quando é necessário criar uma nova história. Marcas duradouras possuem história e orgulho do que construíram.

Portanto, se você acredita que para divulgar seu produto, na web ou na mídia de massa (principalmente), basta estar antenado com as tendências e vale tudo, até ser bizarro, pense de novo. A boa propaganda não é apenas lembrada: é lembrada pelo que se propõe. Um bom anúncio tem nome e sobrenome. Se for apenas aquele do “careca com peruca esquisita dentro do cofre de um veículo” não vendeu. Nem produto e nem imagem. O mesmo vale para aquele que só é lembrado porque a música é extremamente irritante ou porque tinha imagens fofas. Ou porque foi visto 70 vezes numa manhã de TV a cabo. Ou porque tinha um texto horroroso e atores piores ainda.

A comunicação sempre teve seus excessos, assim como a arte. Mas arte é arte: é possível cultuar um artista ou sua obra 100 anos depois porque era incomum, irreverente ou estranha. Comunicação não é arte: só sobrevive o que é realmente bom. E não são necessários 100 anos para que aconteça essa depuração: algumas semanas já produzem efeito.

Portanto, você até pode ouvir Lady Gaga e acreditar que ela irá subverter a música pop; que será lembrada por gerações; que iniciou uma nova estética na música. Tanto faz: ela atingiu seu objetivo. Já, sua campanha, se for lembrada, será apenas como aquela esquisitice sem pé nem cabeça.

Num mundo de consumo de cauda longa, não é preciso ser hit, mas é necessário ter relevância. O consumo de produtos e serviços não é a mesma coisa que o consumo música. Para isso existe o posicionamento, o mapeamento do mercado e da concorrência, as estratégias de defesa, ataque e guerrilha, o foco na distribuição. Usar a estratégia de viralização é uma prática para rapidamente conquistar espaço, mas não irá sustentar seu produto a longo prazo. Portanto, se você pretende sobreviver, invista na forma com a mesma força que o faz no conteúdo: pense distribuição, preço, pós-venda, assistência, recompra, relacionamento.

Celebridades problemáticas têm uma legião de papparazzi à espreita. Produtos problemáticos estão no cemitério das marcas, sem direito a visita ou flores no caixão. No mundo dos negócios empresariais, ser percebido é importante, mas construir uma boa imagem é melhor ainda.

Produtos só criam relações com consumidores se forem capazes de entregar satisfação continuamente, na forma, conteúdo e comunicação. Ainda que possuam relação estreita com o entretenimento, marcas não despertam paixões como músicos o fazem. Para sua marca ser preferida, disputada e valorizada, é preciso ir muito além de um visual impressionante. É preciso constância, consistência e relevância. Nesse caso, beleza não põe a mesa: só abre o apetite.

So you think you can dance

terça-feira, 9 de março de 2010

Quantas vezes você já leu algum artigo ou livro sobre como ter um bom desempenho em entrevistas de emprego? Mesmo que não tenha sido para arranjar um emprego, nos últimos anos o número de especialistas no assunto e a própria valorização da área de Recursos Humanos criou toda uma cultura em torno das técnicas dos processos de seleção, gerando mais e mais conteúdo disponível. Conteúdo esse que é seguidamente influenciado pelos modismos típicos das áreas de administração.

Todo essa informação disponível acaba gerando duas conseqüências: de um lado, profissionais cada vez mais preocupados com suas habilidades e características, inseguros se estão realmente antenados com as últimas tendências da área; de outro, tsunamis de clichês em currículos e processos seletivos, todos baseados nos mesmos modismos e tendências. Mas o que é melhor, usar a estratégia do golfinho, de free-willy ou dos gansos? Ser pró-ativo, trabalhar em equipe, detalhista ou assertivo? Buscar a felicidade ou ser um vendedor pit-bull?

Na ânsia de se adequar às últimas tendências, perde-se a essência. Na luta por se adquirir habilidades valorizadas, sufoca-se habilidades inatas. Na tentativa de se conciliar habilidades inconciliáveis, criam-se verdadeiros frankensteins profissionais. E todo mundo perde, quem contrata e quem é contratado.

Como não sou especialista em Recursos Humanos, não me cabe analisar as técnicas ou os profissionais que as administram. Nem é esse o interesse deste espaço. Mas, depois de 20 anos contratando pessoas (só pela Lumina1 já passaram mais de 200 profissionais), você aprende a conhecer o que busca e o que não quer definitivamente num profissional que irá trabalhar na sua equipe. Como eu acredito que todo conhecimento deve ser open-source, vou tentar dividir o que descobri com você, que me lê.

Primeiro, esqueça os clichês. “Meu maior defeito é ser muito exigente”, “estou buscando novos desafios”, “o cliente é quem paga o meu salário”, “sou um profissional pró-ativo”, “no meu outro emprego não tinha mais pra onde crescer”, entre outras, são frases (mal) feitas que ocultam o que a pessoa pensa e quem ela é na verdade, criando uma imagem aparentemente profissional. Mais importante do que um discurso bem elaborado é um conteúdo bem trabalhado. Invista nisso e mostre.

Se você já largou o tenebroso vício do clichê, então está pronto para o próximo passo: os grandes mitos profissionais. Qualquer candidato a qualquer vaga sabe de cor as virtudes que deve exibir para ser bem sucedido em uma entrevista: trabalhar em equipe, ser capaz de negociar, ter commitment com a empresa, ser flexível, só pra citar alguns. Por que são mitos? Porque essas características, embora elogiáveis, não são fundamentais para todas as funções. Muitas funções, sobretudo técnicas, exigem apenas que o profissional seja capaz de interagir com outras pessoas e não trabalhar em equipe. Mais do que isso: algumas funções exigem que a pessoa quase trabalhe isolada. Ou seja, é melhor conhecer bem as exigências de cada trabalho, ao invés de simplesmente buscar um comportamento que parece adequado.

Se chegou até aqui, é hora da pergunta crucial: você sabe o que quer fazer, tem uma ideia exata de qual é seu projeto de trabalho? Já procurou saber quais as qualificações necessárias para a função que busca? Num mundo conectado, essa informação está disponível agora, já, onde você estiver. Se você não sabe o que quer e nem o que precisa saber, não vai poder trabalhar bem em lugar nenhum. Exemplos: se você busca a área de criação, precisa de um portfólio; se quer ser planejador, precisa não só estar antenado como ter uma visão crítica sobre as novidades; se busca o atendimento, precisa gostar de pessoas e negociações. E isso só pra começar. Cada uma dessas e de outras funções exige um conjunto de características muito mais complexas e sutis. Um programador não precisa apenas conhecer linguagens de programação, deve ser uma pessoa focada, detalhista e criativa (sim, porque 3/4 do tempo de um programador ele perde buscando soluções), que possui a capacidade de entender o que deve ser feito e saber escrever (bem, isso vale pra tudo – ver abaixo).

De forma resumida, o grande problema não está nem nos rótulos, nem nos clichês e nem tampouco nos modismos: está por trás disso tudo. Profissionalismo não é uma espécie de tinta que usamos para encobrir uma superfície deteriorada. Está mais para um verniz que apenas dá brilho e destaque à madeira de qualidade. Acreditar que uma boa embalagem melhora um produto ruim é o problema. Aliás, tem uma história do Calvin que ilustra muito bem isso (veja aqui).

Mas então, o que é o ideal? Mais importante do que clichês e modismos, na minha opinião, são algumas características que valem para qualquer profissão, função, trabalho. Mais: valem para a vida. São elas:

  • Caráter – esqueça os termos técnicos. Caráter é simplesmente a capacidade da pessoa em lidar com as situações, sobretudo quando são adversas. Ser correto, honesto, comprometido, responsável e leal não tem preço.
  • Fazer a diferença – é fundamental ter ambição, metas, objetivos, mas nada será suficiente se não estiver embutida a determinação de fazer a diferença, de ir além, de pensar de forma original.
  • Conhecimento estruturado – acesso à informação e ideias bacanas qualquer um tem hoje. Isso é alardeado como conhecimento, mas não é. Conhecimento estruturado é a capacidade de buscar, selecionar, processar e utilizar as informações. Isso, pouca gente possui de verdade.
  • Saber escrever – email, messenger, linked-in, twitter são algumas das provas de que o mundo corporativo comunica-se pela escrita. Se você não sabe escrever, não saberá se comunicar. Simples assim. Mas não pense que saber escrever é apenas repetir frases (veja passo 1). É preciso saber escrever de verdade, incluindo o aspecto gramatical e isso não é pré-requisito apenas para redator: vale para qualquer função.
  • Saber ler – em tese, isso deveria vir antes do conhecimento, mas o mundo está repleto de pessoas que têm conhecimento e são quase analfabetas, embora isso pertença cada vez mais ao passado. Saber ler tem a ver com onde você busca suas referências, qual a qualidade do seu repertório e o quanto ele é atualizado. Analfabetos que sabem ler e escrever tendem a desaparecer em alguns anos (se bem que nem deveriam existir).
  • Transparência – não tente ser quem você não é na entrevista. Você pode até conquistar a vaga, mas terá que fingir todos os dias e ninguém consegue enganar todo mundo o tempo todo. Igualmente importante é a transparência da empresa, apresentando a vaga como ela é e não de forma a atrair o candidato. Vale lembrar que a entrevista é apenas o início do processo. A seleção mesmo acontece depois, no dia-a-dia de trabalho, que é quando se pode saber quem é quem, sem filtros.

A verdade é que o conjunto de características de um bom profissional não necessita de “rocket-science” e nem de mágica. É preciso ser bom de fato, não basta parecer bom. É fundamental estar comprometido de fato e não apenas no discurso. Ou, como dizem por aí, “se não sabe brincar, não desce pro play!”

Então, você acredita que sabe dançar?

Sobre Marketing Digital

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Uma imagem costumava valer mais do que 1.000 palavras até o nosso presidente dizer que uma imagem não fala por si… O fato é que tem coisas que você aprende na vida e na prática e que facilitam muito a sua vida. Melhor ainda se esse conhecimento puder ser obtido sem esforço. Foi o que resolvi fazer: colocar uma parte do meu aprendizado em posts. Claro que esse conhecimento não fala por si: é o processo todo que vai dizer isso. E nem tenho a pretensão de ensinar nada. Apenas acredito na base da teoria econômica criada por John Nash de que quando cada um faz o que é melhor pra si e para o grupo o resultado é maximizado.

  • “Posto que todo regime comunista é totalitarista, se a Internet tem o compromisso de ser democrática seu sistema econômico só pode ser o capitalismo”. Usei essa frase em 2001 quando um webdesigner falou que os conteúdos na Internet seriam sempre gratuitos. A afirmação recente do Google sobre pagar para exibir notícias parece concordar com a minha afirmação.
  • Se você não consegue que seus clientes paguem pelo serviço oferecido pelo seu site, ou o serviço não é exclusivo ou não vale nada mesmo.
  • “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez” diz o ditado popular. “Mas estourou o prazo e o orçamento” disse eu sobre o Gerente de TI que realizou a façanha.
  • Se um site é bom e barato, não é rápido. Se é bom e rápido não é barato. E se é barato e rápido não pode ser bom. Há exceções, mas são raras bem raras.
  • A publicação de um anúncio numa Campanha é o final de um longo processo de trabalho. A publicação de um site, ao contrário, é apenas o começo.
  • Redes sociais não são invenção da Internet. A tecnologia só acelerou o processo de aproximação e contato entre os participantes. E criou oportunidades de negócio em massa.
  • Ao contrário do mundo físico, o mundo virtual cobra pouco para manter um negócio extremamente especializado ou focado num nicho muito pequeno do mercado (a tal da cauda longa). Mas não se iluda: um negócio ruim não se sustenta on ou off-line; é só uma questão de tempo até isso acontecer.
  • O primeiro estouro da bolha da Internet mostrou que só capital não sustenta um negócio. O próximo estouro vai mostrar que nem todas as boas ideias merecem o céu.
  • Muitas empresas resistem a investir em projetos on-line acreditando que seus targets não usam Internet. Minha experiência mostra que as únicas pessoas que não usam Internet são as que trabalham nessas empresas.
  • A receita de sucesso da maior parte das empresas atuais tem alguns ingredientes em comum. O mais interessante deles chama-se de “colaboração não planejada”. E o que isso significa? Que essas empresas conseguem que seus departamentos em conjunto representem mais do que a soma das partes. Parece simples. E é.
  • Dificilmente você vai encontrar um negócio de Internet que tenha falhado por culpa da tecnologia (considerando-se apenas o aspecto técnico). Da mesma forma, você também não vai encontrar um negócio cujo sucesso deva-se exclusivamente à tecnologia. A diferença entre o sucesso e o fracasso é como a tecnologia foi utilizada e quanto se gastou (tempo e dinheiro) para isso acontecer.
  • Quando um criativo tem dificuldade em aceitar a sugestão do cliente eu lembro a ele que até Leonardo da Vinci trabalhava sob encomenda. Aliás, essa é a única razão que justifica a escolha de Gioconda para seu quadro mais famoso, a Monalisa.
  • O fato de ser possível alterar alguma coisa que já está publicada on-line não significa que isso seja recomendável. O ideal é sempre fazer certo da primeira vez e focar em evoluções, não em correções.
  • Como dizia um antigo gerente de Internet da Natura: “Internet é um mundo sempre inacabado e imperfeito. Deve-se entender isso e não esperar ter tudo pronto e finalizado para agir”.
  • Apesar dos avanços da tecnologia, ainda não existe um programa que gere layouts e textos automaticamente, apertando-se um botão. Quer dizer, pelo menos não com qualidade. Ou seja, continua sendo necessário investir tempo para se fazer isso, mesmo que o cronograma diga o contrário.
  • Existe uma frase de propaganda que continua válida: “a pressa passa a porcaria fica”. Em Internet dá pra acrescentar: “fica sendo alterada sem parar”.
  • Em Internet, menos é mais: menos tempo de desenvolvimento, mais problemas; menos planejamento, mais conserto; menos conhecimento, mais dificuldade.
  • Usabilidade é um termo que ficou conhecido graças à Internet, mas serve para qualquer tipo de produto. Cada vez mais uma boa usabilidade será condição obrigatória para o sucesso de um produto.
  • Porém, acredita-se que usabilidade seja um conceito inflexível e genérico, mais ou menos como o termo consumidor. Aliás, ambas as coisas estão intimamente ligadas: o tipo de usabilidade depende de quem é o consumidor. Quem pensa de forma genérica em ambos acaba desagradando a todos.
  • Não acredite quando alguém afirma que uma determinada solução de tecnologia implementada possui documentação. São pouquíssimas as soluções que possuem documentação e, quando isso acontece, a documentação está defasada ou não contempla as principais customizações realizadas.
  • Quando eu vejo alguma ferramenta ou produto de tecnologia sendo vendido como customizável, logo me lembro da história da sopa de pedras de Malasartes: quanto maior a customização de um produto, mais dispendiosa fica. E menos sentido faz.
  • É impossível andar no mesmo ritmo das mudanças, mas sempre é possível ficar cada vez mais defasado. Só é preciso não fazer nada. As coisas eram bem mais fáceis quando se perdia o bonde da história. Trem bala não tem balaustre.
  • A Internet é totalmente imune à força do pensamento positivo: por maior que seja sua fé, acreditar que as coisas vão dar certo não funciona se o projeto foi mal-executado. O sistema de milagres precisa ser atualizado para rodar on-line.

Como disse antes, não existe a pretensão de se esgotar o assunto. E nem de se chegar a nenhuma conclusão: a melhor coisa de lidar com um ambiente em evolução é que tudo pode mudar; pra melhor ou pra pior. O objetivo dessas afirmações não é pra evitar que se erre. Mas, se é pra errar, que seja cometendo erros novos. Se possível, inéditos.

E você, leitor, que aprendizados pode partilhar? Queremos conhecê-los.

Manifesto à Inovação

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O texto a seguir foi escrito quando a Lumina1 criou a área de Inovação, há 2 anos. Linha por linha continua atual. Como é sempre bom lembrar coisas importantes, resolvi publicá-lo no site.

É a Inovação, e não a Inteligência, a grande mola propulsora da humanidade, o traço inconfundível  que nos distingüe dos animais. É ela que tem-nos movido desde a época das cavernas para o futuro, para as descobertas da ciência, para a exploração do espaço, para a mecância quântica e suas derivações.

Por que não a Inteligência? Porque vários animais são inteligentes. É notório o caso de gorilas e chimpanzés que inventam ferramentas e estratégias para resolver problemas. O golfinho reconhece sua imagem do espelho e é capaz de perceber alguém com deficiência. Num mundo onde inteligência é cada vez mais especializada (é cada vez mais aceito o concetio de inteligência interpessoal, física, matemática etc.), ser inteligente não quer dizer muito. A história é repleta de pessoas geniais que nunca conseguiram ser bem sucedidas em nada.

A inovação, ao contrário, sempre promoveu mudanças. Todas as pessoas consideradas inovadoras ajudaram a mudar o mundo. Todos os grandes avanços, na ciência ou nos negócios, foram precedidos por grandes inovações. Todos os casos de sucesso contém uma grande dose de inovação.

Inovar não é necessariamente andar só para frente: grandes inovações são feitas de novas visões sobre questões já conhecidas. Aliás, inovar depende da coragem de retroceder, de corrigir, de rever o que foi feito. É possível inovar sem criar nada. Mas é impossível inovar sem ter algo novo: um olhar, um ponto de vista, um conceito, um método etc.

Inovar não é necessariamente revolucionário: muitas inovações são simples, corriqueiras. É possível inovar em pequenas coisas. Mas toda inovação, a longo prazo, criar uma revolução. De hábitos, costumes, práticas.

Toda inovação é positiva. Se algo novo mostra-se ruim ou destrutivo, não é inovador: é apenas uma novidade. Porque inovar nos move para frente, mesmo quando olhamos para trás. Inovar depende de melhorar. Inovar depende de resolver. Inovar implica em evoluir.

Porém, uma pessoa inovadora nem sempre é boa: grandes inovações foram criadas ou descobertas por figuras que causaram mais mal do que bem. Mas suas inovações, a despeito de seu caráter, obrigatoriamente são boas.

Inovar não surge da organização. Organização cria conforto, conforto gera comodismo, comodismo gera conformismo, não necessariamente nessa ordem. Por que inovar se funciona? Por que mudar se está bom?

Inovar é mudar. Toda inovação provoca transformação e transformação gera mudanças. De médio e longo prazos.

Para inovar é preciso coragem: para quebrar paradigmas, para rever conceitos, para vencer o comodismo. Segundo Joseph Schumpeter, profeta da Inovação, inovar depende de destruir: chamou ele de destruição criativa. A inovação surge com mais facilidade do caos do que da ordem. Inovar só é realmente possível se houver transgressão.

Esse é o espírito da Lumina1: inovação. Em todos os sentidos. Em todas as direções. De maneiras simples e complexas. Revolucionando ou apenas solucionando. Renovando ou reinventando.

Mas não aceite simplesmente a idéia. Conteste. Saiba mais. Conheça, por exemplo, o que já se sabe e se reconhece sobre Inovação. E tira suas próprias conclusões. Se forem inovadoras, você entendeu o espírito…

Fakonomics

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Já faz algum tempo que não temos posts novos. Tudo culpa do final de ano, que sempre acelera a tomada de decisões de empresas, sejam pequenas, médias ou grandes.

O tema final de ano e seu impacto no processo decisório, por si só, já renderia uma dezena de posts. Mas resolvi abordar isso de uma maneira diferente. Na esteira da leitura de Super Freakonomics, minha última mania, criei uma paródia que tenta, a exemplo do livro, mostrar de forma divertida a relação entre as coisas do dia-a-dia. No livro, uma das coisas tratadas logo de início, é a diferença entre economia (que se ocupa dos mercados e de suas forças) e pensamento econômico (análise sistemática das forças que movem as pessoas) e mostra como sabemos pouco sobre os incentivos que movem as pessoas, daí o Freakonomics (economia doida). No meu caso, como não sou economista, só posso prometer uma ilusão de economia, ou Fakonomics. Mas garanto que as observações tem pelo menos 20 anos de experiência.

Colocadas as coisas, vamos a exemplos… Não me lembro de uma véspera de feriado sem tensão. Até devem existir alguns, mas o fato é que eu não lembro. E por que a tensão? Porque o período que antecede um feriado é o momento preferido para 8 em cada 10 clientes aprovar ou iniciar trabalhos que estavam há semanas parados ou sem rumo definido. Isso é científico: ao se aproximar um feriado, o tempo perdido com idas e vindas de aprovações, quando somado aos dias de descanso (incluind final de semana e eventuais pontes), ganha uma dimensão aterradora. Projetos mortos-vivos e em coma repentinamente voltam à vida e tem pressa de recuperar o tempo que permaneceram imóveis numa gaveta qualquer.

Isso em si já seria um complicador. Afinal, preparar a equipe para abdicar do descanso não é fácil. Mas o mais difícil vem a seguir: sempre que algo é decidido às pressas, as coisas são simplificadas na razão de 1:1. O problema é que essa simplificação, sobretudo em projetos web ou que envolvem tecnologia, nem sempre é possível. Ou seja, a probabilidade de problemas na execução de um projeto aprovado às vésperas de um feriado é de 95%, mais ou menos a mesma que de chover em Ubatuba no mesmo período. E a chance de surgir um problema inesperado no momento que o cliente está inacessível, então, extrapola a lei das probabilidades.

É matemático: quanto mais complicado o projeto, maior a chance de ter um feriado próximo da data de entrega. Quanto maior o atraso, maior o feriado. E quanto maior o feriado, mais simplificação é feita.

Isso não impede que o ciclo se reinicie a cada feriado ou que se intensifique nos finais de ano. Como disse acima, as festas são o período preferido para decisões pendentes, seja a aprovação de novos projetos, seja a definição em projetos existentes, seja na decisão de antecipar algum evento. Mais uma vez fiz as contas e descobri que 8,3 de cada 10 projetos demandam 3,2 vezes mais etapas de aprovação do que a maioria das empresas consegue administrar. Noves fora, as aprovações se acumulam e os atrasos nos cronogramas, também.

Mas tudo bem, porque conforme vai chegando o dia 25 de dezembro, o volume de decisões aumenta 78%, assim como as reuniões de definição que, no período, ficam até 35% mais curtas. Na prática, isso não recupera o atraso, principalmente porque o Natal e Ano Novo insistem em não mudar de data. Sendo assim, quanto mais próximo, mais as expectativas se ajustam à realidade.

Vivêssemos num país menos ensolarado e a taxa de suicídios nesta época triplicaria, sobretudo entre publicitários e internéticos. Mas o sol, a possibilidade de viajar para praia entre o Natal e Ano Novo e os presentes funcionam como verdadeiros estimulantes. E tudo fica esquecido até o feriado seguinte.

E por que isso acontece? Porque o problema não é do calendário. Todos já sabemos quais são as datas festivas, quando irão cair e se irão emendar. E, seja qual for sua religião, o final do ano também sempre vem, mais ou menos na mesma época. Isso deveria levar a planejamento, de processos, projetos, decisões. E a cronogramas, claro. O que o calendário não contempla são as mudanças de rota, as decisões de última hora, as crises e as oportunidades. Num mundo onde tudo muda, a única coisa que permanece igual é o calendário. Estático, imutável, previsível.

Mas por que precisamos de datas? Datas servem de metas e metas nos mostram nosso desempenho ao longo do tempo. Utilizamos as datas para averiguar quanto falta para qualquer coisa. Da entrega do job ao próximo feriado. Utilizamos as datas como desculpa para iniciar um regime, para mudar de vida, para entregar um projeto e para realizar tarefas atrasadas.

Por isso, acreditamos que iniciando um projeto às vésperas de um 12 de outubro que cai numa quinta-feira, vamos fazer caber 2 meses de atraso em 4 dias (e noites, claro). Ainda que Einstein tenha provado que o tempo é relativo, precisa mais do que devoção a Nossa Senhora para esperar que a função tempo espaço seja alterada só porque saiu a aprovação.

Acontece que não raro, nesses 20 anos, já vi muito projeto praticamente perdido ser salvo com algumas horas extras em dias de ver sessão da tarde e vale a pena ver de novo. Vi obstáculos praticamente intransponíveis serem removidos e prazos malucos cumpridos. Diria que mais de 80% dos feriados trabalhando foram úteis e metade disso, fundamental até. Seria uma prova de fé?

Provavelmente. Mas o que posso garantir é que, independentemente da crença, em 100% das vezes que as coisas deram certo houve 120% de dedicação, 140% de compromisso e 150% de suor. Deus ajuda quem cedo madruga, diz o ditado.

Quando você capacita sua empresa para lidar com situações como essas, não dá para reclamar da mania das pessoas de decidir em cima da hora. Você ganha para isso e, inclusive, torna-se fundamental pela confiança na entrega. Mas que é bom trabalhar dentro do planejado, ah isso é.

Fábulas Corporativas

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Todo mundo conhece a fábula da Formiga e da Cigarra, escrita por Esopo e recontada por La Fontaine. Como toda fábula, seu propósito é ensinar regras de conduta às pessoas por meio de histórias simples, tendo animais, deuses, objetos ou mesmo outros homens como personagens. Nessas histórias, erros são usados como forma de aprendizado. Por conta de sua dinâmica, as fábulas sobrevivem ao longo dos séculos porque suas lições continuam a fazer sentido.

Se, como diz o ditado, o tempo é o senhor da razão, por que então as fábulas continuam a fazer sentido? Não seria lógico imaginar que as lições já estariam aprendidas? Não teriam os séculos se incumbido de sedimentar esse aprendizado?

Num mundo com tantas mudanças e depois de tantos séculos de evolução, é difícil crer que uma história escrita 500 anos antes de Cristo poderia ainda fazer sentido. Pior: que a lição que ela ensina pudesse ainda não ter sido aprendida. Mas, fazer o que? Errar faz parte da essência do ser humano.

E por que então estaria eu preocupado com isso? Qual a novidade? Explico…

Desde que a Internet começou a ser usada comercialmente, quase todos os setores econômicos foram afetados, para o bem ou para o mal, com as transformações que ela causou nas comunicações e nos relacionamentos entre pessoas e empresas. Um desses setores é a propaganda.

Ainda que, passados 13 anos, TV, rádio, jornais e revistas não tenham sido relegados aos museus, é fato que o consumo dessas mídias mudou drasticamente, tanto na forma como no conteúdo. A convergência dos meios, embora ainda seja bastante conceitual, há muito tempo acontece na prática. Parte dessas mudanças aconteceria inevitavelmente com a entrada no mercado da Geração Y, já citada no artigo anterior. Mas o grande catalisador das mudanças foi a web. Juntos, esses fatores estão criando uma dinâmica de comunicação e relacionamento entre marcas e consumidores impensável há alguns anos.

Voltando à propaganda (e, logicamente, ao marketing), toda essa transformação criou novas relações, novos papéis, novos players e, acima de tudo, um novo modelo de negócios. Um modelo que não está cristalizado ainda, mas que já definiu alguns rumos.

Bom, aí você vai me perguntar: o que isso tem a ver com a fábula citada no início? Tudo, absolutamente tudo.

No modelo da propaganda vigente sobretudo nos anos 70 e 80, que orientou toda uma nova geração de publicitários, a grande estrela do show era a criação. Os grandes criativos que dominaram a mídia especializada da época, responsáveis pelos sucessos de público e crítica da propaganda, eram verdadeiros artistas, em todos os sentidos. Boêmios, rebeldes, geniais e temperamentais, ajudaram a cultivar a fama que o publicitário ainda carrega. De que participa de grandes festas e noitadas, onde jorram dinheiro e grandes transações.

Quem insistiu em apostar nesse modelo e não percebeu os sinais da mudança dos tempos foi surpreendido com uma verdadeira estiagem nas verbas e na disposição dos clientes em apostar a fundo perdido. Pegos de calças curtas, foram bater à porta das formiguinhas, profissionais de Internet que trabalhavam incansavelmente na construção de negócios complexos e difíceis de entender, e que pareciam preparados para a nova estação.

Exageros à parte, é fato que quase tudo em nossa atividade passou a dar muito mais trabalho, a exigir muito mais esforço e dedicação. Se antes uma ideia valia por mil braços, hoje vivemos sob a máxima de Thomas Edison, que definiu genialidade como 1% de inspiração e 99% de transpiração. Ideias continuam a fazer a diferença, mas apenas se puderem ser orçadas, viabilizadas, implementadas, mensuradas e sustentadas.

A própria Internet já superou a fase de acreditar que um bom conceito de negócios, ainda que não incipiente, possa valer muitas centenas de milhares de dólares. Hoje, isso mudou: qualquer grande venda sempre tem como personagem central um ótimo conceito de negócios que sobreviveu a crises e mudanças, que cresceu e se fortaleceu com ideias inovadoras mas muito trabalho e horas de dedicação de pessoas desconhecidas que varam noites e dias para descobrir e consertar bugs.

Por isso acredito que neste novo período que vivemos, a Cigarra não vai deixar de cantar. Mas vai ter que tocar, dançar, sapatear, e ajudar a coletar mantimentos. Mas vai trabalhar em conjunto com formigas que podem varar noites e noites mas sabem se divertir e que, acima de tudo, gostam de colocar as coisas para funcionar. Essa simbiose é que vai produzir resultados perenes, crescentes, dignos de fama e sucesso.

Aí, talvez, a fábula finalmente possa figurar apenas em bonitos livros de histórias.

Fidelize o Cliente Fiel

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Muita gente que leu o post da semana passada resolveu se manifestar pessoalmente sobre o conceito de cliente fiel. Ao contrário do que pensava, as manifestações não foram no sentido de discordar ou de provar que eu estava errado, mas para entender melhor o que fazer com essa informação.

Ou seja, por mais que pareça um absurdo, é fato que o cliente fiel é apenas um sonho de uma tarde de verão. Porém, o que é a vida sem sonhos? Quem acredita que já compreendeu o conceito e já produziu as mudanças necessárias quer ir além, quer aplicar o conceito de monitorar os interesses, aproveitar a fidelidade potencial e manter o relacionamento com os clientes que melhor respondem a esses estímulos.

Para isso, temos que ir mais a fundo na questão do perfil do cliente: é possível falar em potencial de fidelização de forma genérica? Podemos desconsiderar elementos como idade, sexo, poder aquisitivo etc? Cliente é tudo parecido?

Disse Nelson Rodrigues que “toda unanimidade é burra”. Se assumirmos isso como verdade, a questão fica simples: é possível generalizar, mas cuidado ao fazer isso. Toda vez que extrapolamos a avaliação da amostra, na média estamos certos, mas concretamente não existe o cliente médio. Existem vários clientes parecidos, mas o chamado cliente médio não se parece com ninguém.

Essa questão fica ainda mais espinhosa quando se trata da Geração Y. Para quem não conhece, esse é o termo utilizado para descrever quem nasceu entre 1980 e 1993 (embora esse período possa variar um pouco entre estudiosos do assunto). Esses consumidores, que hoje possuem entre 14 e 27 anos, simbolizam as transformações ocorridas nos últimos anos: são multimídia, multi-conectados, hiper-ativos, não carregam vínculos com o passado, tem sempre um fone no ouvido (e um iPod no bolso) e estão abandonando gradualmente as mídias tradicionais pelas novas. Embora não sejam ainda a verdadeira geração digital (a Geração Z), possuem grande familiaridade com todo tipo de eletrônico.

Dentre todas as generalizações que podemos fazer, uma assusta pelas conseqüências: em termos de relacionamento com as marcas, são nômades, migrando conforme a estação, as tendências e influências do grupo. Criticam hoje as marcas que defenderam ontem com a mesma intensidade que experimentam outras novas. Possuem relacionamento emocional com as marcas mas as trocam junto com as roupas.

Se um consumidor típico já é difícil de fidelizar, o que fazer com um típico geração Y? Como criar vínculos emocionais duradouros se eles vão, com certeza, mudar? Como ficar ao lado deles na mudança?

Primeiro, é preciso saber de que lado sua marca está. Se você é um novo player ou não é o líder, a falta de vínculos duradouros é uma vantagem, não um problema, já que pode facilmente convencê-los a experimentar. Se você é líder, precisa ser rápido e aproveitar o relacionamento enquanto o possui, compreendendo como mudar junto com seu target; ou como fisgar seus sucessores, já que o público está sempre se renovando. Depende também de quão restrito é seu target, se você pode envelhecer com ele ou não.

Sem entrar em detalhes, já que essas estratégias são sob-medida e não dá para criar uma receita de bolo, o que vale é o conceito do título: fidelize seus clientes fiéis. Pense que ele sempre pode mudar, que a concorrência vai tentar isso e que ele será tentado sucessivamente a fazê-lo. Reconquiste-o sempre, ainda que ele pareça já ter sido conquistado. Entenda quem ele é, o que quer e para onde vai. E vá junto. Ao contrário do que se acreditou durante um bom tempo, não tente se antecipar, mostrando que o conhece muito bem: ele próprio não se conhece o suficiente. Ao contrário, seja capaz de dialogar e ouvir. Nas entrelinhas e dúvidas ele pode mostrar mais sobre seus desejos do que muitos bytes de dados armazenados.

Deixe a adivinhação para as cartomantes. Marketing não é uma ciência exata, mas também não funciona com bola de cristal. As empresas inovadoras não se baseiam em previsão do futuro: apenas são mais competentes para perceber as mudanças e mais ágeis em seguí-las. No final das contas, é como o ilusionismo: parece mágica, mas é ciência.

Onde está o cliente fiel?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Quem trabalha com Campanhas de Incentivo e Relacionamento está sempre em busca dos chamados “clientes fiéis”. De acordo com os especialistas, esses clientes são capazes de milagres: consomem mais, aceitam pagar mais caro, permanecem por anos na carteira de clientes e, inclusive, fazem propaganda boca-a-boca dos produtos que consomem.

Se considerarmos que conquistar um novo cliente custa até 7 vezes mais do que mantê-lo, um cliente fiel custaria ainda menos. Ou seja, vale ouro. Melhor do que isso: seria a galinha dos ovos de ouros das empresas.

Por conta disso, vale qualquer esforço para encontrá-lo. Mas isso não é fácil: é necessário utilizar várias ferramentas de database marketing e business intelligence para estratificar a base de clientes e garimpar o que interessa (datamining).

Com a utilização da Internet e toda sua capacidade de monitoramento real-time, buscar e encontrar os clientes fiéis ficou mais fácil e rápido. Em tese, você poderia saber onde ele está neste exato momento.

O problema é que todo esse esforço é em vão, afinal, cliente fiel não existe. Como assim? E a história de campanhas de fidelização e datamining?

Pois eu vou repetir: cliente fiel não existe. Cliente fiel é como cabeça de bacalhau: você pressupõe que existe mas nunca viu. Ou como o Papai Noel: você até acreditava que existia, certeza confirmada pelos resultados (os presentes) mas cresceu e descobriu que era tudo uma farsa. Aliás, antes que esqueça: galinha dos ovos de ouro também não existe.

Sem entrar em discussões filosóficas do tipo “o que é cliente”, “como definir um cliente”, “o que significa fidelidade”, vou explicar essa afirmação de forma prática: talvez até tenha existido uma época de ouro quando clientes se agarravam a marcas e produtos até a morte, lutando com unhas e dentes. Provavelmente nessa época os produtos adorados não tinham concorrentes, ou não tinham concorrentes à altura, ou então o mercado era fechado, ou até mesmo tudo isso junto. A verdade é que o mundo mudou. E muito.

Hoje, em praticamente todas as categorias de produtos e serviços o cliente tem alternativas: de igual qualidade, melhores, piores, mais disponíveis, mais baratas, mais caras, mais legais, mais “cool”. O fato é que as alternativas existem e o custo da mudança é baixo, cada vez mais baixo para mais categorias. Virou prática crescente experimentar, mudar, testar, provar, ver no que dá.

Nenhuma empresa mais é dona de seus clientes, se é que foram algum dia, e não interessa corretores de seguros e vendedores insistirem em discordar. Por melhor que seja um produto ou serviço, se ele não tiver disponibilidade, conveniência, preço adequado e presença, corre o risco de perder o cliente.

Se, hoje, a fidelidade está em desuso no casamento, que oferece barreiras muito mais fortes para a “experimentação” da concorrência, por que as pessoas seriam fiéis a produtos, marcas ou serviços? É verdade que, quando estamos apaixonados ficamos menos propensos à troca, seja no casamento ou na compra. Mas quantos de nós vivem em lua-de-mel permanente com seus cônjuges ou com suas preferência de consumo?

Por isso as empresas tentam de forma tão desesperada criar vínculo emocional com seus clientes. Essa ligação não racional representa uma barreira muito mais forte do que a qualidade intrínseca do produto e o residual da marca. É mais forte do que anos de histórico e relacionamento.

A questão então é: vale a pena buscar a fidelização? Qual o propósito de investir em campanhas de fidelização se não existe a fidelidade? Que resultados esperar?

Simples: evoluindo.

Mas, para isso, primeiro precisamos rever o termo “cliente fiel”. Ele foi criado antes das profundas transformações econômicas e sociais verificadas nos últimos 30 anos. Se o termo (ou o cliente) envelheceu, precisa ser substituído. Alguns teóricos falam há tempos em “embaixadores da marca”, por exemplo. Outros, em “clientes engajados” ou “multiplicadores”. Mudar a terminologia é a primeira parte da mudança. Evoluir a compreensão, também.

A segunda é atualizar os objetivos e parâmetros das campanhas. O cliente pode não SER fiel mas pode ESTAR fiel (em lua-de-mel). E, embora não se possa garantir sua fidelidade, pode-se conquistar sua preferência. Além disso, sabendo-se identificar quem são aqueles com maior propensão para a fidelização, pode-se usar o canal de comunicação estabelecido para descobrir como aprofundar o relacionamento, como criar um vínculo emocional duradouro. Lembram a história da cauda longa? Entender em que parte da curva os clientes estão ajuda nesse processo.

Por fim e mais importante, entender que os cenários são dinâmicos. As necessidades mudam todos os dias, o cliente muda, a concorrência evolui. Coletar e processar informações do maior número de fontes possível, real-time, é essencial para entender o que está acontecendo. E só entender não adianta: é necessário rapidez para agir. Se a situação está em transformação, a demora em agir pode inutilizá-la.

Na prática é mais simples do que parece. Talvez mais trabalhoso também. Até porque esse aprendizado precisa ser contínuo. Mas quanto mais se busca, mais se conhece e mais fácil é agir. E descobre-se que, se não existem ovos de ouro, existem ovos de vários outros tipos. Mas, para encontrar os resultados, não adianta usar picareta: garimpeiro moderno usa Google.