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Bandidos do tempo

segunda-feira, 1 de março de 2010

Estou cada vez mais convencido, ainda que não tenha base científica para isso, que estamos passando por um encolhimento da dimensão tempo. Embora 1 hora continue a ter 60 minutos, 1 minuto, 60 segundos, e assim por diante, acredito que 1 dia, hoje, dura muito menos do que durava há 20 ou 30 anos.

Pensando em como as coisas funcionam (ou não) no Brasil, cheguei até a considerar que alguém estava, há anos, roubando milésimos de segundo todos os dias, na certeza de que ninguém iria desconfiar. Seria ainda pior do que aquele famoso roubo dos centavos de um banco: no caso do tempo, não teríamos os aposentados para descobrir a fraude até porque tempo é o que eles próprios mais desperdiçam.

Essa sensação de que meu relógio estava me enganando chegou de várias fontes diferentes. Começou com finais-de-semana que passavam rápido demais e ganhou corpo no gerenciamento de ações de varejo para clientes: campanhas de final de ano que emendam em férias, que terminam na volta às aulas, que se chocam com Carnaval e que desembocam na Páscoa com um olho no dia das mães. E por aí vai.

O fato é que não existe mais o respiro entre as datas verticais porque o consumidor não tem mais esse tempo para decidir. Em toda parte você ouve gente reclamando que mais um ano nem bem começou e já acabou. Dias viram semanas, semanas viram meses e anos têm passado sem que seja possível divisar quando aconteceu cada coisa.

Se antes parecia ser uma percepção minha, derivada da minha correria pessoal, hoje essa é uma percepção generalizada e não é exclusiva do varejo, da Internet ou da publicidade. Se existe ou não um fenômeno físico, o fato é que as referências da passagem do tempo que usamos por décadas literalmente envelheceram, perderam a validade. Num mundo 24×7, dias não são mais referências dos acontecimentos, assim como os anos não são mais medidas de longo prazo. Um ano virou curtíssimo prazo e alguns meses, o equivalente às semanas de outrora. Pior ainda: com o volume de mudanças que todos os mercados sofrem, esperar pode ser fatal. Antes, tarde; agora, talvez nunca.

Nossa evolução precisa incluir a adoção de novos ciclos temporais que possuam ligação mais precisa com a real velocidade de nossos negócios. Inclusive é possível que negócios diferentes utilizem ciclos diferentes. Mas os ciclos terão que ser reinventados. Precisamos apenas de medidas em comum, que permitam converter o tempo. Ou fazemos isso de forma planejada ou vamos ser atropelados pela realidade. Sistematicamente tenho visto empresas perderem o timing em suas decisões por conta da incapacidade de fazer esse ajuste: levam semanas para tomar decisões num mercado que muda todo dia, por exemplo.

Algumas empresas, como a Natura, já perceberam isso há tempos e não funcionam mais em ciclos padronizados. No caso dela, o nome adotado foi ciclo mesmo e dura mais ou menos 21 dias. Mas não é só isso: cada uma das regiões do país onde a empresa atua começa seu ciclo numa data diferente, de forma seqüencial. E são diferentes os ciclos para a força de vendas, consultoras e consumidores.

Aqui na Lumina1 também já fazemos isso há um bom tempo, usando ciclos diferentes de acordo com cada cliente e com as características de seu segmento de atuação. Essa experiência, reforçada pelos anos que trabalhamos com empresas como a Natura, tem permitido controlar melhor o timing do planejamento e do atendimento às demandas do mercado. Fazendo isso, percebemos que o que parece rápido demais para alguns é pouco para outros.

Engraçado que a música é uma outra área que já considera isso há mais de 500 anos: peças diferentes possuem andamentos específicos, que se traduzem em transcrições próprias, mesmo que as notas sejam as mesmas. Por criar essa codificação inteligente, ao longo dos anos tem sido possível saber como interpretar uma peça e como modificá-la e todo mundo saber do que se trata. Curioso notar que, embora baseado no tempo real (batimentos por minuto), o “tempo” de uma música é sempre soberano e bastante elástico. Graças a esse método eficiente, uma ópera pode acomodar instrumentos e vozes diferentes, cada um com sua freqüência e timbre peculiar mas todos em harmonia.

Encontrar novas medidas para a passagem do tempo é uma necessidade premente e crescente para empresas de qualquer porte, sobretudo aquelas que atuam em segmentos dinâmicos e em evolução. Aquelas que não pararam ainda para pensar na questão estão perdendo um tempo precioso que é cada vez mais curto e, ainda por cima, cedendo espaço para os concorrentes. Outras, ao contrário, já perceberam essas oportunidades e funcionam como os anões do filme do genial Terry Gilliam que dá nome ao post, reinventando velhos produtos ou segmentos, buscando os tesouros escondidos nos buracos do espaço-tempo. Vejam o Google: reinventou a ferramenta de busca, a publicidade on e off-line e o modelo de serviços grátis. Aliás, ela quebrou aquele velho paradigma das escolas de marketing de que o importante era ser o primeiro. É mais difícil lembrar dos primeiros em ferramentas de busca do que o contrário.

Na minha opinião, o futuro está reservado para as empresas que aprenderam a viajar no tempo e não nas pioneiras. Combinar o melhor dos novos modelos (que envolvem tecnologia) com brechas dos velhos modelos (negócios que pareciam consolidados) é o segredo do sucesso. Se a sua empresa não tem tempo para isso, é melhor jogar seu relógio fora: quem desperdiça tempo não precisa controlá-lo.

Sobre Marketing Digital

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Uma imagem costumava valer mais do que 1.000 palavras até o nosso presidente dizer que uma imagem não fala por si… O fato é que tem coisas que você aprende na vida e na prática e que facilitam muito a sua vida. Melhor ainda se esse conhecimento puder ser obtido sem esforço. Foi o que resolvi fazer: colocar uma parte do meu aprendizado em posts. Claro que esse conhecimento não fala por si: é o processo todo que vai dizer isso. E nem tenho a pretensão de ensinar nada. Apenas acredito na base da teoria econômica criada por John Nash de que quando cada um faz o que é melhor pra si e para o grupo o resultado é maximizado.

  • “Posto que todo regime comunista é totalitarista, se a Internet tem o compromisso de ser democrática seu sistema econômico só pode ser o capitalismo”. Usei essa frase em 2001 quando um webdesigner falou que os conteúdos na Internet seriam sempre gratuitos. A afirmação recente do Google sobre pagar para exibir notícias parece concordar com a minha afirmação.
  • Se você não consegue que seus clientes paguem pelo serviço oferecido pelo seu site, ou o serviço não é exclusivo ou não vale nada mesmo.
  • “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez” diz o ditado popular. “Mas estourou o prazo e o orçamento” disse eu sobre o Gerente de TI que realizou a façanha.
  • Se um site é bom e barato, não é rápido. Se é bom e rápido não é barato. E se é barato e rápido não pode ser bom. Há exceções, mas são raras bem raras.
  • A publicação de um anúncio numa Campanha é o final de um longo processo de trabalho. A publicação de um site, ao contrário, é apenas o começo.
  • Redes sociais não são invenção da Internet. A tecnologia só acelerou o processo de aproximação e contato entre os participantes. E criou oportunidades de negócio em massa.
  • Ao contrário do mundo físico, o mundo virtual cobra pouco para manter um negócio extremamente especializado ou focado num nicho muito pequeno do mercado (a tal da cauda longa). Mas não se iluda: um negócio ruim não se sustenta on ou off-line; é só uma questão de tempo até isso acontecer.
  • O primeiro estouro da bolha da Internet mostrou que só capital não sustenta um negócio. O próximo estouro vai mostrar que nem todas as boas ideias merecem o céu.
  • Muitas empresas resistem a investir em projetos on-line acreditando que seus targets não usam Internet. Minha experiência mostra que as únicas pessoas que não usam Internet são as que trabalham nessas empresas.
  • A receita de sucesso da maior parte das empresas atuais tem alguns ingredientes em comum. O mais interessante deles chama-se de “colaboração não planejada”. E o que isso significa? Que essas empresas conseguem que seus departamentos em conjunto representem mais do que a soma das partes. Parece simples. E é.
  • Dificilmente você vai encontrar um negócio de Internet que tenha falhado por culpa da tecnologia (considerando-se apenas o aspecto técnico). Da mesma forma, você também não vai encontrar um negócio cujo sucesso deva-se exclusivamente à tecnologia. A diferença entre o sucesso e o fracasso é como a tecnologia foi utilizada e quanto se gastou (tempo e dinheiro) para isso acontecer.
  • Quando um criativo tem dificuldade em aceitar a sugestão do cliente eu lembro a ele que até Leonardo da Vinci trabalhava sob encomenda. Aliás, essa é a única razão que justifica a escolha de Gioconda para seu quadro mais famoso, a Monalisa.
  • O fato de ser possível alterar alguma coisa que já está publicada on-line não significa que isso seja recomendável. O ideal é sempre fazer certo da primeira vez e focar em evoluções, não em correções.
  • Como dizia um antigo gerente de Internet da Natura: “Internet é um mundo sempre inacabado e imperfeito. Deve-se entender isso e não esperar ter tudo pronto e finalizado para agir”.
  • Apesar dos avanços da tecnologia, ainda não existe um programa que gere layouts e textos automaticamente, apertando-se um botão. Quer dizer, pelo menos não com qualidade. Ou seja, continua sendo necessário investir tempo para se fazer isso, mesmo que o cronograma diga o contrário.
  • Existe uma frase de propaganda que continua válida: “a pressa passa a porcaria fica”. Em Internet dá pra acrescentar: “fica sendo alterada sem parar”.
  • Em Internet, menos é mais: menos tempo de desenvolvimento, mais problemas; menos planejamento, mais conserto; menos conhecimento, mais dificuldade.
  • Usabilidade é um termo que ficou conhecido graças à Internet, mas serve para qualquer tipo de produto. Cada vez mais uma boa usabilidade será condição obrigatória para o sucesso de um produto.
  • Porém, acredita-se que usabilidade seja um conceito inflexível e genérico, mais ou menos como o termo consumidor. Aliás, ambas as coisas estão intimamente ligadas: o tipo de usabilidade depende de quem é o consumidor. Quem pensa de forma genérica em ambos acaba desagradando a todos.
  • Não acredite quando alguém afirma que uma determinada solução de tecnologia implementada possui documentação. São pouquíssimas as soluções que possuem documentação e, quando isso acontece, a documentação está defasada ou não contempla as principais customizações realizadas.
  • Quando eu vejo alguma ferramenta ou produto de tecnologia sendo vendido como customizável, logo me lembro da história da sopa de pedras de Malasartes: quanto maior a customização de um produto, mais dispendiosa fica. E menos sentido faz.
  • É impossível andar no mesmo ritmo das mudanças, mas sempre é possível ficar cada vez mais defasado. Só é preciso não fazer nada. As coisas eram bem mais fáceis quando se perdia o bonde da história. Trem bala não tem balaustre.
  • A Internet é totalmente imune à força do pensamento positivo: por maior que seja sua fé, acreditar que as coisas vão dar certo não funciona se o projeto foi mal-executado. O sistema de milagres precisa ser atualizado para rodar on-line.

Como disse antes, não existe a pretensão de se esgotar o assunto. E nem de se chegar a nenhuma conclusão: a melhor coisa de lidar com um ambiente em evolução é que tudo pode mudar; pra melhor ou pra pior. O objetivo dessas afirmações não é pra evitar que se erre. Mas, se é pra errar, que seja cometendo erros novos. Se possível, inéditos.

E você, leitor, que aprendizados pode partilhar? Queremos conhecê-los.

Fakonomics

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Já faz algum tempo que não temos posts novos. Tudo culpa do final de ano, que sempre acelera a tomada de decisões de empresas, sejam pequenas, médias ou grandes.

O tema final de ano e seu impacto no processo decisório, por si só, já renderia uma dezena de posts. Mas resolvi abordar isso de uma maneira diferente. Na esteira da leitura de Super Freakonomics, minha última mania, criei uma paródia que tenta, a exemplo do livro, mostrar de forma divertida a relação entre as coisas do dia-a-dia. No livro, uma das coisas tratadas logo de início, é a diferença entre economia (que se ocupa dos mercados e de suas forças) e pensamento econômico (análise sistemática das forças que movem as pessoas) e mostra como sabemos pouco sobre os incentivos que movem as pessoas, daí o Freakonomics (economia doida). No meu caso, como não sou economista, só posso prometer uma ilusão de economia, ou Fakonomics. Mas garanto que as observações tem pelo menos 20 anos de experiência.

Colocadas as coisas, vamos a exemplos… Não me lembro de uma véspera de feriado sem tensão. Até devem existir alguns, mas o fato é que eu não lembro. E por que a tensão? Porque o período que antecede um feriado é o momento preferido para 8 em cada 10 clientes aprovar ou iniciar trabalhos que estavam há semanas parados ou sem rumo definido. Isso é científico: ao se aproximar um feriado, o tempo perdido com idas e vindas de aprovações, quando somado aos dias de descanso (incluind final de semana e eventuais pontes), ganha uma dimensão aterradora. Projetos mortos-vivos e em coma repentinamente voltam à vida e tem pressa de recuperar o tempo que permaneceram imóveis numa gaveta qualquer.

Isso em si já seria um complicador. Afinal, preparar a equipe para abdicar do descanso não é fácil. Mas o mais difícil vem a seguir: sempre que algo é decidido às pressas, as coisas são simplificadas na razão de 1:1. O problema é que essa simplificação, sobretudo em projetos web ou que envolvem tecnologia, nem sempre é possível. Ou seja, a probabilidade de problemas na execução de um projeto aprovado às vésperas de um feriado é de 95%, mais ou menos a mesma que de chover em Ubatuba no mesmo período. E a chance de surgir um problema inesperado no momento que o cliente está inacessível, então, extrapola a lei das probabilidades.

É matemático: quanto mais complicado o projeto, maior a chance de ter um feriado próximo da data de entrega. Quanto maior o atraso, maior o feriado. E quanto maior o feriado, mais simplificação é feita.

Isso não impede que o ciclo se reinicie a cada feriado ou que se intensifique nos finais de ano. Como disse acima, as festas são o período preferido para decisões pendentes, seja a aprovação de novos projetos, seja a definição em projetos existentes, seja na decisão de antecipar algum evento. Mais uma vez fiz as contas e descobri que 8,3 de cada 10 projetos demandam 3,2 vezes mais etapas de aprovação do que a maioria das empresas consegue administrar. Noves fora, as aprovações se acumulam e os atrasos nos cronogramas, também.

Mas tudo bem, porque conforme vai chegando o dia 25 de dezembro, o volume de decisões aumenta 78%, assim como as reuniões de definição que, no período, ficam até 35% mais curtas. Na prática, isso não recupera o atraso, principalmente porque o Natal e Ano Novo insistem em não mudar de data. Sendo assim, quanto mais próximo, mais as expectativas se ajustam à realidade.

Vivêssemos num país menos ensolarado e a taxa de suicídios nesta época triplicaria, sobretudo entre publicitários e internéticos. Mas o sol, a possibilidade de viajar para praia entre o Natal e Ano Novo e os presentes funcionam como verdadeiros estimulantes. E tudo fica esquecido até o feriado seguinte.

E por que isso acontece? Porque o problema não é do calendário. Todos já sabemos quais são as datas festivas, quando irão cair e se irão emendar. E, seja qual for sua religião, o final do ano também sempre vem, mais ou menos na mesma época. Isso deveria levar a planejamento, de processos, projetos, decisões. E a cronogramas, claro. O que o calendário não contempla são as mudanças de rota, as decisões de última hora, as crises e as oportunidades. Num mundo onde tudo muda, a única coisa que permanece igual é o calendário. Estático, imutável, previsível.

Mas por que precisamos de datas? Datas servem de metas e metas nos mostram nosso desempenho ao longo do tempo. Utilizamos as datas para averiguar quanto falta para qualquer coisa. Da entrega do job ao próximo feriado. Utilizamos as datas como desculpa para iniciar um regime, para mudar de vida, para entregar um projeto e para realizar tarefas atrasadas.

Por isso, acreditamos que iniciando um projeto às vésperas de um 12 de outubro que cai numa quinta-feira, vamos fazer caber 2 meses de atraso em 4 dias (e noites, claro). Ainda que Einstein tenha provado que o tempo é relativo, precisa mais do que devoção a Nossa Senhora para esperar que a função tempo espaço seja alterada só porque saiu a aprovação.

Acontece que não raro, nesses 20 anos, já vi muito projeto praticamente perdido ser salvo com algumas horas extras em dias de ver sessão da tarde e vale a pena ver de novo. Vi obstáculos praticamente intransponíveis serem removidos e prazos malucos cumpridos. Diria que mais de 80% dos feriados trabalhando foram úteis e metade disso, fundamental até. Seria uma prova de fé?

Provavelmente. Mas o que posso garantir é que, independentemente da crença, em 100% das vezes que as coisas deram certo houve 120% de dedicação, 140% de compromisso e 150% de suor. Deus ajuda quem cedo madruga, diz o ditado.

Quando você capacita sua empresa para lidar com situações como essas, não dá para reclamar da mania das pessoas de decidir em cima da hora. Você ganha para isso e, inclusive, torna-se fundamental pela confiança na entrega. Mas que é bom trabalhar dentro do planejado, ah isso é.

Fábulas Corporativas

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Todo mundo conhece a fábula da Formiga e da Cigarra, escrita por Esopo e recontada por La Fontaine. Como toda fábula, seu propósito é ensinar regras de conduta às pessoas por meio de histórias simples, tendo animais, deuses, objetos ou mesmo outros homens como personagens. Nessas histórias, erros são usados como forma de aprendizado. Por conta de sua dinâmica, as fábulas sobrevivem ao longo dos séculos porque suas lições continuam a fazer sentido.

Se, como diz o ditado, o tempo é o senhor da razão, por que então as fábulas continuam a fazer sentido? Não seria lógico imaginar que as lições já estariam aprendidas? Não teriam os séculos se incumbido de sedimentar esse aprendizado?

Num mundo com tantas mudanças e depois de tantos séculos de evolução, é difícil crer que uma história escrita 500 anos antes de Cristo poderia ainda fazer sentido. Pior: que a lição que ela ensina pudesse ainda não ter sido aprendida. Mas, fazer o que? Errar faz parte da essência do ser humano.

E por que então estaria eu preocupado com isso? Qual a novidade? Explico…

Desde que a Internet começou a ser usada comercialmente, quase todos os setores econômicos foram afetados, para o bem ou para o mal, com as transformações que ela causou nas comunicações e nos relacionamentos entre pessoas e empresas. Um desses setores é a propaganda.

Ainda que, passados 13 anos, TV, rádio, jornais e revistas não tenham sido relegados aos museus, é fato que o consumo dessas mídias mudou drasticamente, tanto na forma como no conteúdo. A convergência dos meios, embora ainda seja bastante conceitual, há muito tempo acontece na prática. Parte dessas mudanças aconteceria inevitavelmente com a entrada no mercado da Geração Y, já citada no artigo anterior. Mas o grande catalisador das mudanças foi a web. Juntos, esses fatores estão criando uma dinâmica de comunicação e relacionamento entre marcas e consumidores impensável há alguns anos.

Voltando à propaganda (e, logicamente, ao marketing), toda essa transformação criou novas relações, novos papéis, novos players e, acima de tudo, um novo modelo de negócios. Um modelo que não está cristalizado ainda, mas que já definiu alguns rumos.

Bom, aí você vai me perguntar: o que isso tem a ver com a fábula citada no início? Tudo, absolutamente tudo.

No modelo da propaganda vigente sobretudo nos anos 70 e 80, que orientou toda uma nova geração de publicitários, a grande estrela do show era a criação. Os grandes criativos que dominaram a mídia especializada da época, responsáveis pelos sucessos de público e crítica da propaganda, eram verdadeiros artistas, em todos os sentidos. Boêmios, rebeldes, geniais e temperamentais, ajudaram a cultivar a fama que o publicitário ainda carrega. De que participa de grandes festas e noitadas, onde jorram dinheiro e grandes transações.

Quem insistiu em apostar nesse modelo e não percebeu os sinais da mudança dos tempos foi surpreendido com uma verdadeira estiagem nas verbas e na disposição dos clientes em apostar a fundo perdido. Pegos de calças curtas, foram bater à porta das formiguinhas, profissionais de Internet que trabalhavam incansavelmente na construção de negócios complexos e difíceis de entender, e que pareciam preparados para a nova estação.

Exageros à parte, é fato que quase tudo em nossa atividade passou a dar muito mais trabalho, a exigir muito mais esforço e dedicação. Se antes uma ideia valia por mil braços, hoje vivemos sob a máxima de Thomas Edison, que definiu genialidade como 1% de inspiração e 99% de transpiração. Ideias continuam a fazer a diferença, mas apenas se puderem ser orçadas, viabilizadas, implementadas, mensuradas e sustentadas.

A própria Internet já superou a fase de acreditar que um bom conceito de negócios, ainda que não incipiente, possa valer muitas centenas de milhares de dólares. Hoje, isso mudou: qualquer grande venda sempre tem como personagem central um ótimo conceito de negócios que sobreviveu a crises e mudanças, que cresceu e se fortaleceu com ideias inovadoras mas muito trabalho e horas de dedicação de pessoas desconhecidas que varam noites e dias para descobrir e consertar bugs.

Por isso acredito que neste novo período que vivemos, a Cigarra não vai deixar de cantar. Mas vai ter que tocar, dançar, sapatear, e ajudar a coletar mantimentos. Mas vai trabalhar em conjunto com formigas que podem varar noites e noites mas sabem se divertir e que, acima de tudo, gostam de colocar as coisas para funcionar. Essa simbiose é que vai produzir resultados perenes, crescentes, dignos de fama e sucesso.

Aí, talvez, a fábula finalmente possa figurar apenas em bonitos livros de histórias.